top of page

Antes de ouvir, o mundo já respondeu

Tenho a impressão de que vivemos cercados de respostas. Em poucos minutos de Instagram ou TikTok, alguém nos ensina como devemos trabalhar, descansar, amar, educar os filhos, organizar a rotina, cuidar da pele, cozinhar, meditar, lidar com a ansiedade, encontrar um propósito e, sempre, viver uma vida mais feliz. É curioso. Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, ainda assim, às vezes me sinto mais perdida do que antes.

Outro dia pensei no ovo. Sim, no ovo. Durante anos ouvi que fazia mal. Depois passei a ouvir que fazia bem. Em seguida, alguém dizia que o ideal era comer ovos todos os dias. Logo aparecia outra pessoa dizendo exatamente o contrário. Afinal, em quem acreditar?

Essa discussão me lembrou outra, bem menos importante para a maioria das pessoas, mas muito marcante para mim. Quando eu era mais nova, sempre ouvia que o condicionador deveria ser passado apenas nas pontas do cabelo e em pequenas quatidades. Eu seguia essa orientação porque parecia haver um consenso. Era assim que "o certo" e deveria ser feito. Só que nunca funcionava. Quem tem cabelos ondulados, cacheados ou crespos provavelmente sabe do que estou falando: muitas das recomendações consideradas universais simplesmente não contemplam todas as experiências.

E talvez seja justamente aí que mora a questão. Nem sempre o problema está na orientação. Às vezes, está na ideia de que existe uma orientação capaz de servir para todo mundo.

Tenho a sensação de que, em muitos momentos, deixamos de escutar e começamos a prescrever. Antes mesmo de alguém contar sua história, já existe uma lista de passos, uma técnica, um método ou uma resposta pronta esperando por ela. Como se a complexidade da vida pudesse caber em um vídeo de trinta segundos ou um carrosel de fotos com 5 passos de como fazer algo.

Não acho que buscar conhecimento seja um problema. Muito pelo contrário. Aprender com a experiência dos outros pode ampliar nosso olhar e nos ajudar a encontrar caminhos que talvez não pensariamos sozinhos. O que me inquieta é quando essas respostas chegam antes das perguntas. Quando nos dizem o que devemos sentir antes mesmo de entendermos o que estamos vivendo. Quando existe um jeito certo de descansar, de trabalhar, de amar, de criar filhos, de envelhecer ou de ser feliz.

Aos poucos, começamos a acreditar que, se nenhuma dessas receitas funciona para nós, talvez o problema sejamos nós. Mas será que somos nós? Ou será que algumas perguntas não podem ser respondidas sem que alguém primeiro se disponha a escutá-las?

Acho que é por isso que a escuta terapêutica é um exercício tão diferente do que estamos acostumados a receber por aí. Ali, ninguém começa oferecendo o passo três antes de entender o que está acontecendo no passo um. Uma boa pergunta, feita na hora certa, pode transformar muito mais do que uma resposta pronta, e é exatamente esse tempo, essa curiosidade genuína por uma história antes de qualquer solução, que sustenta um processo terapêutico. Não porque a terapia tenha todas as respostas (Até porque ela não tem), mas porque ela se recusa a dar respostas antes de ouvir a pergunta inteira.

Talvez nem toda inquietação peça uma solução imediata. Algumas pedem tempo. Pedem espaço para serem ditas em voz alta, sem pressa de virarem diagnóstico. Porque, no fim, o que muitas vezes buscamos não é alguém que nos diga o caminho certo,

é alguém disposto a caminhar ao nosso lado enquanto descobrimos, na nossa própria velocidade, qual caminho faz sentido para a nossa história.

 
 
 

Comentários


bottom of page