Você sabe quem você é?
- Isadora Bettarello

- 8 de jul.
- 3 min de leitura

Outro dia, eu estava ouvindo um podcast — algo que faço com bastante frequência (tenho meus preferidos e sempre aceito novas indicações). A convidada era a Ana Paula Padrão, e um trecho da conversa ficou ecoando na minha cabeça por dias.
Ela contava sobre a própria trajetória profissional. Durante muitos anos, construiu uma carreira sólida no jornalismo e consolidou uma imagem muito específica: a da jornalista, âncora de telejornais. Mas chegou um momento em que percebeu que queria experimentar outros caminhos. O curioso é que, para o mundo, ela continuava sendo apenas aquela versão que havia construído ao longo dos anos. As oportunidades que surgiam estavam sempre ligadas à mesma identidade profissional. Para seguir um novo caminho, ela precisou dar alguns passos para trás e, aos poucos, reconstruir a forma como era vista.
Enquanto ouvia essa história, fiquei pensando: quantas vezes a imagem que construímos sobre nós também acaba nos aprisionando? Talvez isso não aconteça apenas na carreira.
Desde que ouvi essa entrevista, comecei a perceber como essa pergunta aparece em diferentes lugares. Às vezes, nos atendimentos clínicos. Outras vezes, nas conversas com amigos. E, muitas vezes, em mim mesma. Quem sou eu?
É uma pergunta aparentemente simples, mas que pode carregar um peso enorme. Conheço pessoas que parecem ter absoluta certeza de quem são. Defendem suas ideias com firmeza, sustentam uma imagem muito bem construída e se angustiam quando sentem que precisam provar o tempo todo essa versão de si mesmas.
Também conheço pessoas que vivem a experiência oposta. Sentem que estão perdidas, sem saber exatamente do que gostam, quais caminhos desejam seguir ou até como responder quando alguém pergunta: "Me conta um pouco sobre você."
E, olhando com calma, talvez essas duas experiências não sejam tão diferentes quanto parecem.
As duas carregam, de algum modo, a tentativa de encontrar uma resposta definitiva para uma pergunta que talvez nunca tenha uma resposta definitiva.
Acho que a maioria de nós já passou — ou ainda vai passar — por alguma crise de identidade. Aquelas fases em que a vida muda de direção, as certezas deixam de fazer sentido e a versão de nós que parecia tão conhecida já não nos representa da mesma maneira.
Nesses momentos, é comum buscarmos segurança nas definições. Tentamos descobrir se somos fortes ou frágeis, decididos ou inseguros, extrovertidos ou tímidos. Como se fosse possível encontrar uma palavra capaz de explicar quem somos.
Mas a experiência humana dificilmente cabe em categorias tão rígidas. Somos contraditórios. Mudamos de ideia. Descobrimos novos interesses. Revemos escolhas. Há dias em que nos reconhecemos com facilidade e outros em que nos sentimos quase estrangeiros de nós mesmos.
Talvez sejamos muito mais parecidos com um rio do que com uma fotografia. Estamos sempre em movimento. E talvez essa seja uma boa notícia.
Porque significa que não precisamos encontrar uma versão definitiva de nós mesmos para começar a viver. Podemos mudar de rota, experimentar novos caminhos, abandonar identidades que já não fazem sentido e construir outras, sem que isso signifique perder quem somos. Gosto de pensar que somos um projeto inacabado.
Não no sentido de que sempre nos falta alguma coisa, mas porque continuamos sendo atravessados pelas experiências, pelos encontros, pelas escolhas e pelas pessoas que passam pela nossa vida. E talvez seja justamente essa incompletude que torne possível continuar existindo de maneiras diferentes.
Este é o primeiro texto de uma série em que quero pensar, junto com você, sobre a existência. Não para encontrar respostas prontas, mas para caminhar por perguntas que, de tempos em tempos, voltam a nos visitar.



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